Avenida Brasil acabou, a outra novela já começou, e todo mundo ainda fala da Carminha. Confesso que sou noveleira e tive minha parcela de empolgação pela vilã da vez, mas outra coisa me chamou muita atenção na conclusão do folhetim: o casamento poligâmico dos personagens Cadinho (Alexandre Borges), Verônica (Débora Bloch), Noêmia (Camila Morgado) e Alexia (Carolina Ferraz).
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Minha primeira reação a todas essas colocações foi o seguinte pensamento: "mas será que esse povo não tem um lote pra capinar?". Mas depois de pensar melhor sobre o assunto, resolvi dar uma resposta mais madura e didática (e um tantinho irônica, também). Ponto a ponto. Vamos lá, cambada:
1) "Que absurdo!" - Pois é, que absurdo existir um relacionamento cujo funcionamento seja de comum acordo entre todos os envolvidos! Porque um relacionamento como esse da novela é exatamente isso: um comum acordo entre as três esposas e o marido. As três concordam em compartilhá-lo, estão felizes com isso, e até passam a ser muito amigas. Sendo assim, qual o problema? Ninguém tá sendo enganado aí. Não tem nenhuma mentira no meio, pelo contrário: a história terminou de forma muito sincera. Que absurdo, né? Um relacionamento sincero, minha gente! Onde é que vamos parar?
Ou, talvez, a pergunta correta seja: o que cargas d'água você tem a ver com o relacionamento alheio?
2) "Que exemplo estão dando pras pessoas?" - Ok, sabemos que as novelas e outros programas de televisão estão carregadas de mensagens, implícitas ou não, que seus autores querem que os telespectadores captem. É a tão comentada "manipulação televisiva". Mas daí dizer que estão querendo influenciar o povo brasileiro a ser poligâmico, é uma looonga viagem. Se for pra entender alguma coisa da história dos quatro personagens é que, num relacionamento onde há sinceridade entre as partes, vale tudo. E o que tem de errado nessa mensagem? Nada, né? Pois então.
É como culpar um filme violento pela atitude de um assassino - o que a gente viu acontecer diversas vezes, inclusive recentemente. O nome disso é: transferência de responsabilidade. Dizer que um filme (ou jogo, ou música, ou novela) influenciou alguém a cometer um ato qualquer, é isentar esse alguém da responsabilidade de tal ato e, logo, das consequências. Vou desenhar pra quem não entendeu: imagine (ou, se quiser, pde se lembrar dos inúmeros casos reais semelhantes a esse exemplo que vou dar agora) que um pai tenha apedrejado seu filho até a morte porque ele não obedeceu a uma ordem sua. Exatamente como está escrito na Bíblia - sim, amigos e amigas, isso está escrito na Bíblia: Deuteronômio 21, versículos 18 a 21, aqui. Então, a culpa é da Bíblia? Ou é esse pai que é um babaca?
O que nos leva à última das colocações:
3) "Isso é pecado!" - Lá vem. Os ávidos apontadores de pecados alheios. Apontar dá verruga no dedo, viu, gente? Como se nunca tivessem cometido um pecado na vida. Devia ter alguma passagem na Bíblia dizendo que impôr sua crença aos outros é pecado capital, aí eu queria ver todo mundo bancando o portador da palavra divina. Que tal começar a seguir essa seguinte premissa básica: se você não gosta que façam com você, não faça com os outros. Pensem só, queridas amigas, como seria agradável ser condenada por um muçulmano porque você não usa burca. Ou vocês, caros amigos, receberem o desprezo de uma moça judia porque não fez circuncisão. Julgar é bacana, não é? Chato é só quando julgam você.
Voltando à colocação número 1: se você não tem nada a ver com o relacionamento alheio, porque sua religião vai ter?
É isso, minha gente. Se você não aceita que te imponham as coisas, não imponha nada sobre os outros. Não gosta de poligamia? Tudo bem, não pratique. Não gosta de aborto? Não faça. Não gosta de se relacionar com pessoas do mesmo sexo? Não se relacione. Mas não meta seu bedelho na escoha alheia - ou vai estar dando aos outros o direito igual de meter o bedelho na sua.
Pra fechar com chave de ouro, deixo vocês com esse documentário gracinha:
P.S.: o primeiro que me vier com "você está julgando meu direito de julgar", ganha uma bofetada virtual.









