Filha de mãe solteira e com hábitos incomuns, acabei desenvolvendo um comportamento altamente solitário durante a minha infância e adolescencia; e comportamento que possivelmente me seguirá durante o restante da vida. Tive dificuldades em romper com os meus interesses individuais e abrir uma porta para que outras pessoas pudessem entrar, compartilhar os seus problemas, as suas alegrias ou apenas alguns sorrisos ao final de um dia cansativo.
Criada ao lado de um irmão pouco mais velho, os nossos amigos sempre foram os mesmos. Cresci com garotos, não aprendi a contar segredos e a compartilhar sentimentos. Compartilhava a bola do futebol – que jamais foi, e possivelmente nunca será o meu forte -, as brincadeiras na rua, as quedas de bicicleta (no meu caso, inúmeras), patins, cicatrizes, mas nunca sentimentos. Nunca as minhas paixões, as minhas angústias, os meus problemas e a minha primeira menstruação.
Nunca gostei de bonecas. Tentei gostar, mas as minhas Barbies sempre sofriam de alguma doença terminal; os meus bebês boneca nasciam mortos e achava um saco meninas sofrerem por amor tão cedo.
Conclusão? A medida em que o tempo passava e as diferenças entre eu e os garotos aumentavam, comecei a me afastar deles. Não por mal, mas me sentia diferente. O corpo havia mudado, também as idéias e os interesses, e ficar na rua jogando futebol ou video game, não parecia suficiente naquele momento.
Fiz novos amigos e eles eram os meus personagens. Lia e me apaixonada por cada um deles. Queria ler cada vez mais. Também descobri os filmes e a música e entrei em um universo que era meu, e só meu.
Anos depois, já no ensino médio, fiz as minhas primeiras amigas mulheres. Não necessariamente as primeiras, mas possivelmente as mais relevantes. Percebi que andar com meninas não era algo ruim. Percebi, na verdade, que todas as coisas que eu sentia e que pensei que ninguém jamais fosse entender, eram os mesmos problemas que as incomodavam. Que poderiamos comentar sobre garotos, sobre sentimentos, sobre tpm e sobre todas as coisas que meninas possivelmente passam e os garotos não fazem a mínima idéia.
Mas descobri que os meus antigos amigos homens também haviam mudado. Que naquele momento, os meus problemas passaram a ser os problemas que eles enfrentavam também e que a adolescencia é um período dificil para qualquer um e independente de sexo. Percebi que as nossas afinidades que nos aproximaram na infancia se tornaram outras, mas que eram capazes de nos unir de forma ainda mais sólida. Que eu poderia sim falar sobre sentimentos e talvez eles fossem as pessoas capazes de me entender melhor.
E no fim das contas, descobri – e para a minha surpresa -, que era uma boa amiga. Como todas as demais pessoas do universo, tenho os meus defeitos. Mas fui entendendo o que era amizade. Entendi que nem todos os dias serão bons. Que muitas vezes você vai preferir se afastar e passar um tempo sozinho, que por outras, o seu amigo cantando em aramaíco vai te fazer querer jogar ele pra fora do carro ou mesmo que as suas pessoas preferidas, vão ser a que você mais detestará durante uma semana. Mas que, você vai se sentir confortável para falar sobre tudo isso. Que ele canta mal, ou que você se incomodou por uma atitude ou outra.
E você vai se sentir confortável para criticar, elogiar, falar todas as besteiras que passam pela sua cabeça e que normalmente faltaria coragem para comentar com qualquer outra pessoa do universo, também para falar a verdade, por mais que possa doer.
Eu poderia continuar. Poderia listar inúmeras outras coisas que amigos fazem, o que amigos aceitam, que amigos perdoam e que amigos esquecem.
Mas todos nós temos um amigo e já passamos por inúmeras situações.
Eu só gostaria de dizer que, mais importante que qualquer outra figura social, o amigo está lá no topo. E como um bom amigo, vai sempre tentar te levar pra cima - com ele.











