segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O abuso nosso de cada dia


Sabe aquele momento em que você, depois da correria cotidiana, finalmente consegue um descanso e conta pros seus amigos como foi o dia? Fofoquinhas de trabalho, comentários sobre uma aula chata, alguma paquerinha fora de hora, coisas que dividimos diariamente com as pessoas? Pois eu estava bem num momento desses, quando uma amiga me contou a história dela:

Hoje eu ia visitar o cliente, então estava toda bem vestida e tal. Daí não queria ir de ônibus, mas meus caronas me abandonaram. Peguei o maldito ônibus. Estava toda distraída olhando pela janela quando de repente, num carro ao lado do ônibus, com todas as janelas abertas, rodeado de carros... Percebo que o motorista... Estava se masturbando.
Final da história: Eis como eu comecei meu dia. Vendo um tarado filho da puta mexendo no pau grotesco e veiúdo 10h da manhã publicamente.

Bateu a revolta também? Pois então, colega, você é uma das poucas pessoas que compartilham desse sentimento. Infelizmente, situações como essa - incrivelmente numerosas - são encaradas como "normais". Do tipo "acontece, é assim mesmo".
É assim mesmo?! Porquê?

"Que bundinha, hein, gostosa"
Todo mundo se choca com casos de abuso. Uma mulher é estuprada, uma criança é violentada, alguém é espancado, e qualquer ser humano com alguma sensibilidade sente o devido repúdio (a não ser quando a mulher "mereceu", ou quando o homem é "bandido" - coisas sobre as quais vou falar em posts futuros, certamente). É aquele absurdo, e todos teorizam sobre o que deve ser feito a respeito. Mas se uma mulher tá andando na rua, ou sentada dentro de um ônibus, e um sujeito acha que pode colocar o pau pra fora e se masturbar sem nenhum pudor, tudo bem! Acontece. É assim mesmo.

É comum as pessoas acharem que só é abuso quando há contato físico. Mas minha amiga, que contou essa história ali em cima, se sentiu profundamente abusada. Eu, quando recebo cantadas invasivas (o que acontece todos os dias, o tempo todo; e isso não tem nada a ver com ser "bonita" ou "feia" - outro assunto que devo abordar posteriormente), também me sinto abusada. Uma mãe que vê seu filho sendo alvo de olhares desejosos pode ter certeza: seu filho tá sendo abusado. Alguém que recebe ameaças de abuso, mesmo que nunca concretizadas, já tá sendo abusado pelo simples vislumbre do abuso. Se você, leitor ou leitora, se identificou com alguma dessas situações, deixa eu te contar uma coisa: você foi abusado. Você pode nunca ter sido tocado, e talvez o assédio nem tenha sido direcionamento especificamente a você; mas sim, você foi abusado. E tem todo o direito de se sentir como tal.

Poderes que eu gostaria de ter
Coisas como essas acontecem todos os dias, em todos os lugares. Fazem parte do nosso cotidiano, tão corriqueiras quanto uma conversa com amigos no fim do dia. No trabalho, na escola, na rua, na balada, no barzinho; um número incontável de pessoas são abusadas sem que nenhuma providência seja tomada. Não é feita nenhuma denúncia, nada é compartilhado, nem mesmo uma reclamação, um xingamento, simplesmente se aceita - porque acontece, é assim mesmo, é a natureza humana, a vida é assim, entre outras expressões de passividade que usamos quando temos preguiça de pensar direito.

Falei com minha amiga: se fosse eu, teria pelo menos colocado a cabeça pra fora da janela e gritado. Teria xingado o infeliz e anunciado pra todo mundo que tinha um tarado ali. Teria exposto sem nenhuma vergonha que eu tava sendo abusada naquele exato momento - e todo mundo ali também! Porque enquanto houver silêncio, enquanto houver o "é assim mesmo", vai haver abuso.

E você, já foi abusado hoje?


P.S.: nada como estrear minha participação no blog com um soco no estômago! ;)

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