Meu aniversário tá chegando. No próximo dia 3, vou fazer 28 anos - que eu sempre penso como "quase 30". Não sei se acredito nesse negócio de "inferno astral" (o mês que antecede seu aniversário), mas que a proximidade dessa data me deixa melancólica e filosófica todo ano, isso é verdade.
Claro que também fico animada. Planejo minha festa, deixo meus amigos avisados, encho a geladeira de cerveja (já passei da época do guaraná faz uns 10 anos, né, minha gente) e procuro receitas de bolo; mas é inevitável pensar que tô ficando velha. É, Júlia, você tá ficando velha! Já fica procurando fios brancos no cabelo, disfarçando rugas com maquiagem, reclamando de dor nas costas, procurando um marido (ops, isso não!)... e junto com tudo isso, tem o peso de todas as expectativas que jogam sobre você - porque, afinal, você já é adulta, e isso é uma tremenda responsabilidade!
E isso me faz pensar muito no tempo que passou. Não tenho problema nenhum em ficar velha, exatamente; mas examinar minha vida do começo até aqui e concluir que perdi muito tempo fazendo nada ou pouca coisa - no que diz respeito ao que se espera de alguém da minha idade - me deixa angustiada e ansiosa.
![]() |
| "Escolha uma vida. Escolha um trabalho. Escolha uma carreira. Escolha uma família." |
A sociedade (um termo que não gosto de usar por ser muito impreciso, mas na falta de outro melhor) inventou um modelo muito engraçado de pessoa adulta. É aquela pessoa centrada, que tem um emprego regular, paga sozinha suas contas, tem um bom plano de saúde e procura (se já não tem) estabilidade em todas as esferas da vida. Ou seja, é aquela pessoa chata, quadrada e que abriu mão de todas as coisas bacanas da "juventude" pra ser aquele tal de "alguém na vida" - uma historinha macabra que contam pra gente lá na infância, tipo o boi da cara preta: cresça e reproduza toda essa baboseira capitalista e conservadora de estabilidade financeira e adequação social.
Ficar bêbado com os amigos em plena quarta-feira? Não. Colecionar histórias em quadrinhos? Não. Fazer piadas idiotas só pra irritar alguém? Não. Dar chilique quando as coisas apertam? Não. Tudo molecagem. Depois que você adentra a cruel e densa selva da vida adulta, meu amigo, acabou a folga aos sábados e as sessões intermináveis de videogame. Não pode ter medo de careta não, garotada, se não quiserem ser um completo fracasso.
![]() |
| "Eu escolhi não escolher uma vida." |
Por isso, resolvi ser um pouco como o Peter Pan: uma criança que nunca cresce. Pensando bem, eu gosto muito de viver, no sentido não padronizado do termo, e não quero perder a parte divertida do processo - mesmo com a melancolia que acompanha o passar do tempo. É claro que isso exige uma boa dose de responsabilidade e temperança: tenho contas pra pagar, um objetivo a perseguir, e outras coisas de gente grande, afinal. Não posso negar a bagagem que a idade me impõe. Mas não preciso jogar fora meus brinquedos da infância nem minha rebeldia da adolescência pra ter espaço no meu futuro. Na verdade, acho mesmo que meu futuro depende de tudo isso pra ser pleno.
Parabéns pra mim! :)
---
"Se crescer significa que estaria abaixo de minha dignidade subir em uma árvore, eu nunca vou crescer, nunca vou crescer, nunca vou crescer!"
(Peter Pan, J. M. Barrie)
Imagens: do filme "Trainspotting"
Título: da música "Envelheço na Cidade", do Ira!










