Disseram-me certa vez que Einstein
disse – e por isso acho importante ressaltar -, que as coincidências
eram maneiras que Deus encontrava de permanecer no anonimato. Tendo esta
frase em mente e mesmo não acreditando em Deus (ou em Einstein, mas o
segundo é mais convincente), um fato me veio à cabeça.
Coincidência á a maneira que Deus encontrou para permanecer no anonimato. - Einstein
Na penúltima sexta-feira de março, resolvi ligar para a minha mãe (desde que sai de sua casa, era um hábito semanal). Naquele dia, no entanto, havia esquecido a minha agenda e decidi arriscar alguns números. Errei, claro. Quem atendeu ao telefone foi um rapaz de voz meio rouca. Em ligações futuras, percebi que o motivo para tal rouquidão, haviam sido as duras conseqüências de sua noite, que o fizeram acordar com uma terrível dor de cabeça e a garganta ressecada. Ele pensara que fosse sua cunhada o repreendendo por faltar a um evento familiar e logo disparou alguns xingamentos. Após algum tempo tentando explicar quem era, caímos na risada e transformamos o meu engano em um hábito diário.
Às
20h, aguardava próxima ao telefone e então ele ligava. Conversávamos
sobre trivialidades, interesses em comum, projetos e ambições. Ele tinha
26 anos. Aos 25 concluiu a faculdade. Seu curso era direito, seu sonho
filosofia. A família nunca apoiou a ideia. Pela sua descrição, era alto.
O mais alto de cinco irmãos e também o caçula. Possuía cabelos negros,
encaracolados e olhos de um azul profundo. Sempre com a barba por fazer e
um nariz que lhe rendeu apelidos durante a infância, o meu amigo
gostava de ressaltar o quanto era tímido. Ele sabia o mesmo a meu
respeito. Sabia que assim como ele, havia concluído um curso ao qual não
estava certa. Apeguei-me as promessas e ao primeiro trabalho que surgiu
na redação de um jornal local, e decidi seguir a vida. Nós mantínhamos
as nossas conversas, e mesmo que ambos desejassem, nunca verbalizamos
uma situação ao qual pudéssemos ir além. Um café, talvez. Ou uma
cerveja. Não importava. Gostava de perder algum tempo antes de pegar no
sono imaginando como seria estar ao lado de um desconhecido que eu tanto
conhecia.
No
inicio de maio, meu noivo retornou de Porto Alegre. Após cinco meses
trabalhando fora, decidiu retomar os preparativos de nosso casamento e
foi quando me afastei de meu amigo. Parte de mim passou a sentir que o
que fazíamos era errado. Digo, se não fosse, porque faltava coragem para
falar com o meu noivo a respeito de Theo? Sua ultima ligação foi feita
no dia 6 do mesmo mês, quando pedi para que parasse.
Na última semana de Setembro, no entanto – e este é o motivo de todos os meus questionamentos -, havia planejado um encontro com a minha mãe e a minha sogra para conversarmos sobre o casamento. Não fazia questão, mas como poderia faltar a uma overdose de revistas de noivas e sugestões sobre quais flores combinariam melhor com a decoração da igreja? Era o meu casamento.
O trânsito das 18h me forçou a sair do Táxi em plena avenida e seguir ao meu destino a pé. No cruzamento próximo ao restaurante no qual me aguardavam, a distração fez com que esbarrasse naquele rapaz. Diversas folhas voando pelos ares. Sequer sabia por onde começar a ajudar, mas comecei a juntar todas as folhas que via pela frente, quando os nossos olhos se encontraram. Por alguns segundos, talvez até um minuto, o caos ao nosso redor parecia ter desaparecido. Perdemos algum tempo apenas fixados um nos olhos do outro. Quando me dei conta da situação, decidi juntar o que mais estivesse ao meu alcance, para logo tomar o meu rumo. Aquele azul profundo, barba por fazer e cabelos encaracolados, me impediram de escutar uma palavra da qual me foi dita pelo restante do dia. Meu cérebro parecia tentar me convencer do impossível. Nós nunca havíamos nos encontrado, e se o encontrasse, não o reconheceria. Assisti a muitos filmes do Woody Allen, talvez apenas quisesse fazer da minha vida um deles. Resolvi bloquear todas essas ideias e evitar pensar no assunto.
Dois dias depois, no entanto, fui surpreendida por uma ligação. Faltando ainda 15 minutos para as 20h, o telefone tocou e era ele. Não precisava dizer nada e nos primeiros minutos, apenas escutava a sua respiração. Só se pôs a falar quando perguntei quem era. Foi quando me disse sobre um fato engraçado que havia ocorrido em sua semana. Ao sair do trabalho – dizia ele -, esbarrou com uma mulher bastante desajeitada. Uma mulher de cabelos longos e olhos cor de mel. Olhos que fizeram com que se lembrasse da forma que imaginava os meus. Este era o motivo da ligação. O nervosismo (ou talvez felicidade) fizeram com que eu soltasse apenas uma risada e não dissesse mais nada a respeito.
Desligamos. E não voltamos a nos falar.
Ainda
penso em sua voz, penso em ligar e revelar que era eu aquela pessoa.
Parte de mim gostaria que pudesse ser dito. A outra apenas imagina que
ele também já sabe. O certo é que Einstein ou Deus passaram a fazer mais
sentido nas últimas semanas, mesmo que nenhum deles expliquem como pude
me casar com outra pessoa.













