sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A Minha Laranja


“Este livro mudou a minha vida. Meus pais me deram um coração. Zezé ensinou-me como fazê-lo pulsar.” Isso não era uma dessas mensagens bonitinhas que se publica em perfil de alguma rede social na internet. Era verdade o que escrevi. A releitura depois de quase 20 anos de “O Meu Pé de Laranja Lima”, do escritor carioca José Mauro de Vasconcelos, me chocou.

E me chocou porque eu me lembrava de tudo. Não podia ser uma questão de ter boa memória, era como se eu nunca tivesse deixado de ler aquele livro por um instante sequer apesar de todos aqueles anos. Leitoras e leitores, convenhamos, 20 anos não é qualquer coisa.

Vou pedir ajuda ao Rui Barbosa. Este político baiano pode me esclarecer. Grifei um pequeno trecho do seu famoso “Oração aos Moços”. Esta aqui: “Para o coração, pois, não há passado, nem futuro, nem ausência. Ausência, pretérito e porvir, tudo lhe é atualidade, tudo presença.” Era dever da escola e quando li aquele livro e conheci o menino Zezé e sua história, eu decidi que aquilo seria um dos momentos mais importantes de minha vida inteira. Assim foi decidido com toda aquela onipotência a que se tem direito a imaginação infantil. Então aquelas páginas tornaram-se parte de mim como a pele, o pâncreas, músculos... O coração... “Tipo tatuagem?” Não, não, muito mais visceral.

Mas será possível fazer isso, guardar a criança que fomos como se guarda dinheiro no banco? Protegido e sempre que precisamos ele estaria ali a ajudar?

 “... Sempre que o adulto balança ele vem pra me dar a mão...” (Nã nã ni na não, não vou dizer de onde é isso. Espero não ser preciso!)

Mas veja como é incrivelmente idiota se proteger das pedras que o crescer e o tornar-se adulto nos jogam, usando como escudo algo pequeno e efêmero como é o coração de uma criança!

Se isso fosse possível e se isso foi o que aconteceu comigo realmente. Agora não sei. Um bom herdeiro daquele pé de laranja lima, ainda com medo que aquele trem, o impiedoso Mangaratiba, venha e rasgue ao meio os meus sonhos? Eu não seria o primeiro jovem adulto em crise a procurar respostas onde se pode encontrar apenas saudade.

Zezé era intenso e frágil, malicioso e santo. O menino criado por José Mauro de Vasconcelos descobria o mundo. E com os seus sorrisos e com as suas lágrimas – e muito mais lágrimas que sorrisos – aprendi junto com ele. E no final o que importa é que o que tenho a dizer hoje a ele é a mesma coisa que eu poderia ter dito quando tinha apenas 10 anos e é o que ainda pretendo dizer no futuro: “Obrigado, Zezé!” Apenas parte da responsabilidade que se assume quando ganhamos uma herança desejada.

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