quarta-feira, 21 de agosto de 2013

F, a chuva F

senta aqui, nós precisamos conversar, foi o que F pensou, senta aqui, vamos conversar, foi o que F pensou, mas F não disse, apenas pensou, porque ele não tinha que falar aquilo, não F, mas qualquer outra letra que não ele, e eu tive que concordar com F, ele não tinha que falar nada, afinal, o que F fez? mas ele queria falar e pensou que poderia, segurou-se em sua cadeira e continuou mudo, como todos os efes fariam naquela situação, F, cadê você? volte aqui, F, vai se molhar nessa chuva, mas F tinha um guarda-chuva e não se molhou, nem mesmo quando um carro chacoalhou uma poça, F sabia se defender com seu guarda-chuva, F, pare de chorar, e ele, tão cara-de-pau, disse que era apenas o barulho de alguma sirene passando na rua, conversei com F essa noite, ele disse que ainda queria falar além de pensar, ele disse que queria falar senta aqui, nós precisamos conversar agora mesmo, eu disse que ele deveria ficar pronto, mas parado, como se não fosse pra lugar algum, apenas parado e pronto, pronto e parado, F não gostou muito da minha ideia, mas disse que faria o que eu havia proposto, pois, pobre de F, antes tão propositor, agora era apenas algo pronto e parado esperando alguma coisa acontecer, e eu continuei lhe dizendo, F, se nada acontecer em breve, você se move, mas não pra direção que você está pensando, e sim pra outra completamente diferente, acho que F entendeu meu recado, ele tinha alguma coisa na cabeça, ainda, e um pouco de perseverança, e eu continuei lhe dizendo, F, é porque você não escolheu nada, então mantenha-se calmo, conhece o tempo? então, o tempo, F, apenas o tempo, mas se nada acontecer em breve, você foge como um rato de um gato, mas esse gato não existe, ele é uma fantasia, você vai correr de nada, como um louco, seja louco, e fuja de nada, nada mesmo, ouviu, F? ele estava me ouvindo, ele já estava até parado e pronto pra qualquer coisa que ele não saberia dizer o que seria, F estava lunático, um louco sem motivo, mas um louco que tinha consciência de sua loucura, então ponto pra F, ele estava fazendo bem, F, eu disse, você sabe mesmo o que aconteceu? e F disse que queria apenas ter falado senta aqui, agora mesmo, porque precisamos conversar, mas conversar sobre o que, F? ele disse que não sabia me responder, mas depois disse que sabia, e que se tratava de alguma coisa relacionada com partida e depois com retomada, mas uma retomada que lhe soava como uma segunda coisa, que o colocava num plano de fundo, uma coisa pra depois, e eu disse que não conseguia entender, mas F se esforçava e continuava parado e pronto, com sua cabeça fixa e com os seus olhos loucos, consciente da insanidade de seus olhos, eu diria que F até tinha treinado aqueles olhos na frente do espelho, mas ele não precisava daquilo, porque ele já conhecia a loucura sem precisar forçá-la, ele disse que tudo isso era conversa fiada, mas eu insisti que ele conhecia a loucura antes mesmo de ter nascido, porque lá, naquele útero, era tudo tão bagunçado e bom, F, o que você está fazendo? você não deve se mover agora, não agora, só em breve, se nada acontecer, e não pra essa direção, ele disse que estava apenas querendo coçar seu pé direito, e eu fingi que acreditei, F foi  embora, pois o tempo havia passado, talvez não o tempo suficiente pra ser o breve que eu havia proposto, mas F era muito ansioso e sempre foi e nunca conseguiu medir a sua ansiedade, F foi embora antes mesmo de eu sentar ao seu lado e conversar agora mesmo

extraído do meu blog cadeiragiratoria.wordpress.com

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