quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Estudos de Lena

Durante um tempo indeterminado que parecia ser determinado pela instabilidade das coisas que não pareciam se fixar, Lena buscou se dedicar a uns poucos estudos sobre as curvaturas acentuadas de suas penalizações corriqueiras. Ela entendia que, numa acepção mais estrita do termo, não poderia desculpar a si mesma pelas coisas que tinha feito para as pessoas que ela não era. As penalizações de Lena reincidiram catastroficamente sobre seu próprio corpo, e provocaram alarmes desenfreados de coisas que queriam escapar sem poder escapar efetivamente. Lena parecia estar dentro de um labirinto com poucas curvas, com poucas esquinas, com passagens tão retas e corredores extremamente compridos que a impossibilitava de enxergar qualquer outra coisa a não ser aquelas coisas verdes que se grudam nas paredes dos labirintos. Contudo, num dia que apenas caminhava neste labirinto, já cansada e esbaforida e empertigada em pensamentos evasivos, Lena viu uma pequena janela, que depois não era janela, mas sim uma estante, uma estante pequena, que depois não era mais estante, mas apenas uma prateleira, uma única prateleira que não configurava estante alguma. Naquela prateleira, ela disse “por favor, por favor, por favor” repetidas vezes, três vezes três esta repetição, para ser mais exato, e da prateleira tirou um livro que da cor eu não me lembro agora e que não faz diferença, e deste livro descolorido pela memória perdida, Lena leu algumas coisas que a despertaram para um interesse sobre os estudos das curvaturas acentuadas de suas penalizações corriqueiras. De dentro daquele livro, Lena foi tirando pequenas frases que se aglutinavam em ideias anticatastróficas e que viam nas catástrofes maneiras ainda mais acentuadas de demarcar territórios densos de processos de vascularização de concepções sobre o que é penalizar-se. Lena estava absorta em pequenas linhas e sabia e via que sabia ler todas aquelas linhas. Naquela prateleira já não havia livro além daquele. Naquele único livro, havia um mapa. Naquele mapa, apenas vagas orientações sobre a geografia do labirinto. Seguindo aquelas orientações vagas de um modo acertado, Lena foi alcançando o limiar. E, então, estacionada no limiar, Lena olhou pra trás e viu que o labirinto era densamente verde.

 Numa olhada pra fora, Lena viu que tudo era densamente verde também, mas com gradações quase invisíveis. E como numa tentativa discriminada, Lena foi enxergando outras coisas, mas ainda não estava pronta. Descreveu curvaturas e triangulou pontos de desequilíbrio, mensurou ângulos sestrosos e enfim passou a entender outras particularidades de suas curvaturas acentuadas de penalizações corriqueiras. Lena já estava em outro lugar, mas mesmo assim no limiar, não aquele limiar do labirinto, mas numa transição ainda opacamente esboçada. Ela possuía um diagrama e uma cartografia e uma catástrofe pronta para ser implodida. Na implosão, outras armadilhas seriam desfeitas e provocariam o que Lena chamaria de “frustração das suas curvaturas acentuadas de penalizações corriqueiras”. Lena estava desfeita de qualquer penalização. Lena já era outra coisa, mesmo que ainda Lena. Lena no nome, apenas.

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