Sempre adorei cortar o cabelo, principalmente pra marcar
novas fases. Não tenho esse apego que muitas mulheres possuem. Sento na cadeira
do salão, peço um corte curto e pronto.
Não vou dizer que faço isso cem por cento segura, porque
quando a tesoura passa perto do pescoço, derrubando chumaços grandes, minha
barriga dispara um alarme frio. É como se meu corpo dissesse: “Ei, vai com
calma! Isso aí faz parte de mim”. Mesmo assim, eu adoro! Adoro passar as mãos
nas madeixas macias com pontas novas. Adoro ver o velho cabelo no chão.
De um modo geral, fomos mal acostumados. Aprendemos que é
melhor reter e acumular para nos sentirmos seguros, mas é exatamente ao contrário. Quando
a gente perde ou abre mão é que a segurança vem. É assim com a bicicleta quando
você tira as rodinhas, com as boias que você deixa de usar ao nadar, com os
pais que ficaram no interior enquanto você foi enfrentar outra cidade... De repente, nasce um novo alguém que, mesmo tendo perdido alguma
coisa, ficou mais confiante, mais maduro, mais sábio. Matemática exata é essa da vida, onde mesmo
perdendo, se ganha.
Já escolhi meu próximo corte, também já estou preparada para
o espanto das pessoas ao me verem, na percepção delas, com uma coisa a menos. Mal
sabem que essa é uma das minhas formas favoritas de renascer. E eu aconselho
todo mundo a nascer de novo dessa forma: abrindo mão. Aconselho todos a olharem ao
redor e analisarem o que realmente é necessário: será que não existe algo na sua vida que traz sensação
de garantia, mas na verdade só está lhe impedindo de viver algo inédito?










