segunda-feira, 4 de março de 2013

Eu nunca vou querer ser como aqueles pais

De todas as tardes quentes e abafadas que as Minas Gerais me proporcionaram, muitas delas foram mais acaloradas devido às mil discussões que haviam na casa em que fui criada. Elas se tornaram lembranças a partir do momento em que dei uma breve escapada, mas houve um fatídico dia em que retornei ao "lar doce lar", que está longe da definição que encontrei no dicionário, em algum momento da minha vida escolar, e era algo do tipo:

Lar:
Local onde há harmonia, onde as pessoas vivem e sentem-se bem.

E, hoje, em meados de 2013, me encontro no mesmo antônimo de lar onde quem lá vive muito se pica e pouco se ouve. Mas o que fazer? Já ouvi mil conselhos sobre esperar, que um dia as coisas se ajeitam... Mas sabem aquela pontada de inveja quando vê uma família fazendo um programa legal, porque os membros possuem afeto entre eles? Pois é. É uma das coisas com as quais não convivo.
Um lar onde as pessoas não suportam a si mesmas e descontam frustrações é como um campo minado, você não deve pisar em falso, mas precisa sair do lugar. Eventualmente, vai acabar pisando em uma mina e tendo pedaços de si mesmo destroçados. É o que aconteceu comigo enquanto crescia, e confesso que pisei em milhares de minas durante minha trajetória. 

Não contava com que ao crescer, continuaria pisando, e foi aí que descobri que o desamor e descontentamento não era relacionado à minha pessoa, ou que eu era realmente a criminosa que não lavava os copos esquecidos e merecia um sermão de 15 minutos sobre a má pessoa que se é por isso.

Um dia, sei lá quando, acordei com a impressão de que durante essas duas décadas de vida, depois de poucas e boas, estava mudada. E quem sempre me atazanou, não. Não só não estavam mudados, como continuavam com o mesmo papo, inclusive de que "a felicidade não importa, o que importa é que estamos vivos". E esse tipo de coisa.

Acontece, que alguns pais são infelizes nessa jornada e tendem a descontar suas frustrações nos filhos, e se acharem deuses. É sério, não sou uma rebelde sem causa, fui criada ouvindo que dentro de casa "se é uma hierarquia e que filhos não são nada". E cá estou, puta da vida por render uma briguinha de pais, que precisavam estender para as filhas, porque brigar entre si ficou sem graça ao longo dos anos em que estive ausente do cenário de guerrilha que eles com tanto cuidado demoraram a montar.

Sabe, um dia vai passar. E podem me chamar de ingrata, mas eu agradeço pelas roupas, pelas contas pagas, pela ajuda financeira em projetos escolares, pela educação e pela saúde. Mas eu agradeceria muito mais se tivesse menos roupas, se as contas ficassem atrasadas, se eu ralasse mais quando menor para bancar os meus projetos, tendo educação e saúde se o mínimo de carinho tivesse feito parte da minha educação.

Minha dor é perceber que eu nunca vou querer ser, em nenhum aspecto, como aqueles pais.
Vou é acertar, dar carinho e viver intensamente com aqueles que estão por vir.



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