segunda-feira, 15 de abril de 2013

Aqueles dias do assunto intocável!




Aquele dia ainda está marcado em detalhes na minha memória.  Descrevi para minha mãe sobre o ocorrido após esconder o fato por 3 dias achando se tratar de uma doença que me mataria aos 11 anos. O drama foi afastado quando ela concluiu: “Você menstruou, sua boba!”. Daquele dia em diante, entrei num tráfico que movimenta milhões por ano: o tráfico dos absorventes.

Dentre as várias recomendações recebidas, a maior delas dizia que ninguém deveria saber quando eu estivesse “naqueles dias”, aqueles dias os quais não falamos! Não sou a única que aprendeu a esconder os absorventes em necessaires  bolsas e sacolas de supermercado sem nem questionar a necessidade disso.  Ok, ok, não é da conta de ninguém o seu ciclo menstrual, mas vale a reflexão sobre a diferença entre ser discreta e esconder o fato com vergonha, principalmente quando se é muito jovem.

Que mulher nunca negou um dia na praia escondendo o verdadeiro motivo com várias desculpas e a culpa de um criminoso? Ou mentiu para o professor de educação física sobre a sua condição para não fazer aquele exercício mais pesado? Ou enrolou o absorvente no meio da roupa enquanto atravessou a sala cheia de gente a caminho do banho?

Pior ainda é fazer cara de paisagem quando o famigerado escapa da bolsa enquanto você procura as chaves, ou quando o irmãozinho avista o tal no seu guarda-roupa e pergunta do que se trata, ou ainda quando o caixa do supermercado não encontra o cadastro do produto e grita para o mercado inteiro: “fala aí o código do absorvente X!”. O tráfico dos absorventes envolve outras atitudes como, por exemplo, chamar a amiga no canto da balada pra saber se ela tem algum na bolsa ou esconder o pacote secreto no fundo das gavetas das calcinhas.
Os tipos são os mais variados, mas atenção para o absorvente interno que pode levar à condenação a adolescente que for flagrada com grande porte, afinal o dito cujo denuncia que há 90% de chance da vida sexual dessa meliante ter começado, o que trará julgamentos pesados! Quem entra no tráfico não sai tão cedo, a não ser que apele para anticoncepcionais, que por sua vez também formam um comércio secreto!

Passados 14 anos de atuação no tráfico dos absorventes, dei vacilo, errei na conta, errei nos planos! Fui pega desprevenida no trabalho! Constrangida, como aos 11 anos antes de conversar com minha mãe, fui ao mercado. No caixa, um homem! Dei voltas e voltas, olhei para os lados e peguei a parada. Na hora de pagar, lá estávamos nós: clandestinos! Ele olhou pra mim nervoso, procurou um saco de papel pardo para embrulhar. Com pesar, me disse: “Só tem sacola transparente”. A atitude dele me fez rir e enfim perceber o quão ridícula é essa cultura toda! Falei com atitude de Simone de Beauvoir: “Relaxe! Passa pra cá, não tem problema não!”.

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1 comentários:

Morri de rir agora...kkk E foi assim por anos até que desencanei totalmente. Poxa, que vergonha tem nisso???

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